O início do trabalho Batista no Brasil está profundamente ligado aos movimentos missionários, políticos e sociais do século XIX, tanto no contexto brasileiro quanto no norte-americano. Em 1851, o Brasil surge, pela primeira vez, como possível campo missionário dos Batistas do Sul dos Estados Unidos. A proposta foi discutida pela Junta de Richmond, mas não resultou, naquele momento, em uma decisão oficial. Nos anos seguintes, especialmente em 1857 e 1859, o país voltou a ser cogitado como destino missionário, em um contexto marcado também por debates sobre a possível migração de parte da população negra norte-americana para territórios fora dos Estados Unidos.
A primeira tentativa concreta de implantação do trabalho Batista em solo brasileiro ocorreu com o missionário Thomas J. Bowen. Em 11 de janeiro de 1859, Bowen escreveu à Junta de Richmond colocando-se à disposição para servir no Brasil. Em novembro do mesmo ano, ele, sua esposa e a filha pequena foram oficialmente nomeados missionários, tornando-se os primeiros Batistas enviados com essa finalidade ao país. Contudo, sua recepção esteve longe de ser favorável. Registros da imprensa da época revelam resistência e hostilidade por parte de setores da sociedade brasileira, que viam a presença Batista como uma ameaça religiosa e cultural.
Além da oposição local, o trabalho de Bowen foi prejudicado por sua frágil condição de saúde e pela ausência de resultados significativos em termos de conversões ou organização eclesiástica. Após apenas oito meses e dezenove dias de ministério, Bowen foi chamado de volta aos Estados Unidos para avaliação. Seu relatório final sobre o Brasil foi desanimador, levando a Junta de Richmond, em 1861, a descartar temporariamente o país como campo missionário.
Paradoxalmente, foi nesse mesmo período que um evento histórico decisivo abriu caminho para a presença Batista duradoura no Brasil: a Guerra da Secessão Americana. Fugindo do conflito, grupos de imigrantes sulistas buscaram refúgio em outros países, entre eles o Brasil, onde o governo imperial autorizou a formação de colônias agrícolas. Uma dessas colônias foi estabelecida em Santa Bárbara, na então província de São Paulo, composta por famílias metodistas, presbiterianas e Batistas. No caso dos Batistas, esses imigrantes foram, depois de Bowen, os primeiros a se estabelecerem de forma contínua em território brasileiro.
Mesmo antes da organização formal de uma Igreja, os batistas imigrantes já demonstravam vida religiosa estruturada. O reverendo Richard Ratcliff, integrante desse grupo, celebrou casamentos e exerceu funções pastorais, sendo responsável pelo primeiro casamento oficiado por um ministro Batista no Brasil. A organização da Igreja Batista de Santa Bárbara ocorreu em 10 de setembro de 1871, com cerca de 27 membros fundadores. Esta Igreja é considerada a primeira igreja Batista em solo brasileiro.
Essa mesma Igreja teve papel decisivo no avanço do trabalho missionário. Em 1872, enviou um apelo oficial à Junta de Richmond solicitando missionários para o Brasil, pedido que seria atendido apenas oito anos depois. Nesse intervalo, em 1879, foi organizada a Igreja Batista da Estação, também em moldes semelhantes aos de Santa Bárbara.
Um marco na expansão do trabalho Batista nacional ocorreu em 1882, com a chegada de missionários enviados especificamente para evangelizar os brasileiros. Com a atuação de William Buck Bagby, sua esposa Anne, e posteriormente Zacarias e Kate Taylor, foi organizada, em Salvador, a Primeira Igreja Batista em Salvador, na Bahia, em 15 de outubro daquele ano. Sua missão era claramente evangelística e nacional.
A partir desse marco, o crescimento foi constante. Nas décadas seguintes, diversas Igrejas foram organizadas em cidades estratégicas, como Rio de Janeiro - RJ, Recife - PE, Maceió - AL, Juiz de Fora - MG e várias localidades da Bahia. Esse avanço culminou, no início do século XX, na organização da Convenção Batista Brasileira, em 1907, sinalizando maturidade institucional, expansão missionária e consolidação doutrinária.
Hoje, os Batistas figuram entre os protestantes históricos de maior crescimento no país, mantendo forte ênfase na autonomia da Igreja local, no governo congregacional e na obra missionária, inclusive além das fronteiras nacionais. Compreender essas origens históricas é fundamental para entender a identidade teológica, eclesiológica e missionária dos Batistas no Brasil, formada ao longo de um percurso marcado por desafios, perseverança e compromisso com a proclamação do Evangelho.
Marcelo Santos, pastor, historiador, professor e escritor; pastor da Igreja Batista da Graça - SP